sexta-feira, janeiro 23, 2015

Variações

Licenciei-me em 2009, depois de 5 (longos ou nem tanto, depende da perspectiva) anos.
Estudei, a princípio, o ordenamento jurídico pelo qual as pessoas se regem neste país. Do mais político ao mais prático.
Depois, ingressei na advocacia. Para quem não sabe, a advocacia, para mim, foi quase como a polícia para qualquer cidadão: "não sabes fazer nada? Vai para a polícia."
Então, tive a oportunidade de aplicar a lei. É um problema. Pode ser estimulante, consoante a área de prática ou o nervosismo do cliente. Contudo, um problema é sempre um problema.
Todos os dias morro um bocado devido à escolha que fiz. Para tantos, o curso de direito foi um suplício de um calvário de dificuldades, mercê da carga teórica e desinteresse que algumas matérias suscitam. Digamos que sofri um pouco naqueles cinco anos. Mas sofrer é bem diferente de uma morte, ainda que metafórica.

Hoje, quase 5 anos depois da conclusão do iter jurídico, chegado de um almoço catita, tenho na minha secretária uma sentença.

Sem revelar dados mais técnicos, dizia, em suma, que não tinha razão.

O direito é curioso: podemos não ter razão a vários níveis. Ganhar é ter razão em todos.

Estar a escrever este texto é, tão-somente, um exercício de contacto com a realidade.

Desde cedo que a vida me disse que a minha capacidade intelectual dava, quando muito, para qualquer coisa relacionada com a distribuição alimentar. Conduzir um camião de alfaces. Repor stock nas prateleiras de uma superficie de supermercado. Empilhar caixotes. Varrer corredores.

Diga-se, em abono da verdade, que não pretendo escarnecer de qualquer destas actividades. São dignas e executadas por alguém, sem qualquer dúvida, bem melhor que eu.

Só que devo colocar as coisas em perspectiva. Nenhuma das profissões citadas precisa de 5 anos de estudo e sucessivos seminários de aperfeiçoamento. Basta a boa vontade e força. E isso são coisas que não me faltaram.

Mas, hoje, perdi. Perdi em vários níveis e em vários campos. Mal comparando, é como se o Sporting tivesse perdido em casa contra o último classificado das distritais e os rivais tivessem ganho ao Real Madrid e Barcelona nos respectivos domínios.

E perdi porque li (não concordo, repito-o até à exaustão) mal a lei aplicável.

5 anos de curso.

Quase 5 anos de prática.

E li mal a lei. (Diz o Juiz.)

Princípio de Peter verificado.

Tenho que mudar as agulhas.










segunda-feira, janeiro 19, 2015

Problema da 4.ª Classe

Tenho viatura automóvel própria. Devo dizer, em abono da verdade, que é uma ferramenta de trabalho e lazer como nunca tive.

Não tenho casa própria, mas vivo numa arrendada, em Almada. E já lá vivo vai para dois anos.

É natural, quando não obrigatório, deslocar-me naquela que é a tradicional rotina pequeno-burguesa "casa-trabalho-casa".

Mas vale a pena ser específico. Durante a semana, a rotina exacta é: casa-trabalho-casa-trabalho-casa. E porquê? Porque a refeição a que se convencionou chamar almoço é tomada, por mim, em casa.

Não vem ao caso toda a miríade de complexos sócio-económicos que brotam deste estilo de vida.

Abrevio: no dia de hoje, quando vim a casa almoçar, estacionei a viatura onde estaciono sempre. Quando voltei, tinha uma notificação, a primeira da minha vida: não era uma multa de trânsito, nem de estacionamento. Isso viria depois. Depois do quê? Depois de falhar a oportunidade que me foi dada para pagar uma taxa indevida de ocupação de um lugar de estacionamento pago.

Adiciono mais umas variáveis:

- Em Almada, há 3 tipos de lugares de estacionamento (grosso modo): livres, para residentes e pagos.

- Tenho livre acesso aos lugares "para residentes";

- Estacionei naquilo a que apelidei de "lugar pago".

- Procurei e não havia qualquer lugar disponível para residente.

 Pergunta-se:

Tendo em conta que:

- Os lugares pagos o são desde as 9 horas até às 19 horas, durante os dias úteis e das 9 horas até às 14h aos sábados,

 - Que entro ao serviço depois das 9 horas,

Como é que é a minha vida?

segunda-feira, janeiro 12, 2015

Ainda não decidi

"Pensar é estar doente dos olhos" ou o autor deste post pensa demais e, portanto, quer fazer um downsizing desse departamento por si próprio apelidado "Departamento de meditação que cai, mais das vezes, em saco roto".

Deixo de falar na terceira pessoa, agora.

Ainda não decidi se sou, ou não, Charlie.

Como quero diminuir o peso do supra citado "Departamento" limitei-me a ver os factos e a tirar conclusões, sempre no tom mais básico a que qualquer representante da humanidade pode aspirar.

Os ataques são de um nojo inominável. Soma-se tudo o que está errado: tirar a vida às pessoas, em nome de inexistências, por motivos reprováveis.

Atacou-se a vida, a liberdade de expressão, de imprensa e fez-se a apologia da violência e de um sector extremista de uma religião que até prega a paz.

Porventura, quando se ergue a bandeira de "Somos todos Charlie", queria estender-se a todos e a cada um a dor do ataque. Não com o preço da própria existência, mas num acto simbólico em que ficámos todos afectados com a diminuição, pela força, de liberdades essenciais. Será qualquer coisa do género: calar um é calar todos. Aconteceu a um como podia ter acontecido a todos.

Depois apareceu o Gustavo Santos.

Quem tem andado atento a vídeos e programas de TV sabe de quem se trata. Life Coach (e associar o termo ao futebol?) e apresentador. Ex-bailarino e atual lenha para queimar.

A única coisa que, até hoje, o Gustava Santos me deu foi uma valente gargalhada. E não estou as falar do comentário que fez no FB. Refiro-me aos vídeos motivacionais em que "o grande amor da vida do Gustavo é o Gustavo. Por isso é que se chama a vida do Gustava. A nossa mente chama-se mente porque nos mente todos os dias".

Depois de me lembrar do "Meu irmão", imortal êxito do quarteto 1111, ri-me.

Gustavo Santos foi linchado. Só faltou irem a casa dele com Ak-47 e darem-lhe um tiro.

Para além do Gustavo Santos, apareceu Rui Sinel de Cordes. João Quadros. José de Pina. Tudo nomes cujo trabalho aprecio, cada um à sua maneira. Chegaram comentadores. Chegaram anónimos.

Já ninguém queria ser Charlie. Uns porque "não é Charlie quem quer". Outros porque não gostam de rótulos e outros por ser Charlie não é nada daquilo que tem sido apregoado.

Nisto, sinto-me como o Paulo de Carvalho.

Fiquei sem saber quem era e o que fazia aqui.

Depois de tanta linha escrita, tanta tinta usada, só me apercebi que sou o autor deste post.


Sei lá se sou Charlie.

O "mote" usado para agregar as pessoas para uma causa (Je suis Charlie) foi, ele próprio, alvo de discussão, de separação, de ofensa e de contenda, ainda que a uma escala reduzida.

E era usado para o bem!

O dever de qualquer pessoa de bem, concorde ou não com os Cartoons, Cristão ou Muçulmano, jornalista ou "civil", preto ou branco, mais cómico ou menos cómico, mais ou menos susceptível, é só um e um só: condenar o acto que vitimou aquelas pessoas. Porque não há desculpa no mundo que salve quem as atacou.

Não há razão para pensar se houve excesso dos cartoonistas. Nem para pensar sobre os limites de humor. Não é essa a discussão.

Morreram pessoas. Morreram no exercício das suas funções. Morreram sem razão atendível.

Só se pode discutir os limites do humor quando há liberdade. Só se pode discutir o que é ou não ofensa quando existem e se aplicam os mecanismos próprios do Estado de Direito.

Quem mata porque está ofendido não sabe o que é a liberdade. Quem defende cegamente um ideal sem postura crítica não é livre.

Por isso, com o devido respeito, marimbo-me para quem é e para quem não é Charlie.


segunda-feira, janeiro 05, 2015

Quantificação

Morfologicamente, pareço o Prof. Chanfrado, personagem interpretada por Eddie Murphy.

Desde dia 24 que os meus convívios passam por um farto repasto. Comer e beber. Conversar. Galhofar. Comer e beber. Conversar. Galhofar.

Tenho perdido tanta coisa ao longo da vida que já me custa quantificar. Pessoas, sobretudo. Depois há os bens, a honra, a dignidade e o amor próprio.

Em nenhum momento da minha (ainda) parca existência envidei esforço algum para me serem retiradas as realidades supra citadas.

Agora, estou redondo.

Como perco a roda de camião que habita no meu ventre?

domingo, janeiro 04, 2015

Estou velho.

Era só  isto.

terça-feira, dezembro 23, 2014

De maneiras que, e mais uma vez ao contrário dos outros anos, não vou enviar mensagens nem telefonar a quem quer que seja a desejar feliz natal, ou próspero ano novo.

Impossibilidades

Por esta altura, ou talvez não, já teria neste espaço uma qualquer árvore de natal e uns votos de festas felizes.

Este ano estou a ser incapaz de postar seja o que for nesse sentido.

As razões são muitas.

A principal é que estou a sentir, mais que nunca, a perda. Sinto a falta. Das pessoas. Do espírito.

Os natais que vivi são irrepetíveis. Nunca havia alegria como aquela. Era como se o ano todo se andasse a preparar para dar as pessoas doses maciças de jubilo, alegria, felicidade.

E assim foram pelas pessoas que o compunham (ao natal) como pela ideia do mundo que tinha.

Nada daquilo se manteve. O que acaba por ser natural. As pessoas partem, tanto física como mentalmente, e as nossas concepções também.

Por isso, em vez dos habituais votos de boas festas, vou escrever, uma vez mais para memória futura, algumas lições que tiro deste ano.

A de hoje é:

- Não vale a pena fazer o bem, ajudar, assistir. É mais feliz quem não pratica semelhantes virtudes.

(Não estou a querer dizer que o contrário é aceitável.)

segunda-feira, dezembro 22, 2014

Por ocasião do Natal

Descobri que me tornei um cínico.

É verdade.

Toda a gente fala dos grandes confrontos e guerras que existiram na história.

Raramente alguém se lembra de quem estava no meio. Na diplomacia, no controlo de danos, na promoção do entendimento.

A verdade é uma: não obstante a existência de meios pacíficos de resolução de litígios, sejam eles quais forem, uma contenda só acaba quando alguém a vence.

Alguém tem de perder para que haja, pelo menos, alguém contente, um vencedor.

Ninguém está disposto a transigir, a chegar a meio termo.

Na ótica dos terrestres, transigir é perder totalmente. E isso ninguém quer.

Vai daí, tornei-me cínico.

Estou no meio de tudo. Ou quase.

Estou constantemente a tentar apagar fogos, a pacificar a equilibrar.

E isso é tarefa de um cínico.

Também descobri recentemente, ou talvez não, que só conta, para toda a humanidade (escrevo duas vezes: TODA A HUMANIDADE) os actos tidos por errados.

Não sobra a lembrança, jamais, de atitudes nobres e corretas. A desconfiança nunca merece arguição. Uma coisa que parece errada aos olhos de um julgador, passa a não parecer, para ser, e uma vida normal é um atentado à decência.

Isto para dizer que, aos olhos dos que me rodeiam, sou uma desilusão.

E isso é mais trágico de aturar no Natal.