segunda-feira, dezembro 22, 2014

Por ocasião do Natal

Descobri que me tornei um cínico.

É verdade.

Toda a gente fala dos grandes confrontos e guerras que existiram na história.

Raramente alguém se lembra de quem estava no meio. Na diplomacia, no controlo de danos, na promoção do entendimento.

A verdade é uma: não obstante a existência de meios pacíficos de resolução de litígios, sejam eles quais forem, uma contenda só acaba quando alguém a vence.

Alguém tem de perder para que haja, pelo menos, alguém contente, um vencedor.

Ninguém está disposto a transigir, a chegar a meio termo.

Na ótica dos terrestres, transigir é perder totalmente. E isso ninguém quer.

Vai daí, tornei-me cínico.

Estou no meio de tudo. Ou quase.

Estou constantemente a tentar apagar fogos, a pacificar a equilibrar.

E isso é tarefa de um cínico.

Também descobri recentemente, ou talvez não, que só conta, para toda a humanidade (escrevo duas vezes: TODA A HUMANIDADE) os actos tidos por errados.

Não sobra a lembrança, jamais, de atitudes nobres e corretas. A desconfiança nunca merece arguição. Uma coisa que parece errada aos olhos de um julgador, passa a não parecer, para ser, e uma vida normal é um atentado à decência.

Isto para dizer que, aos olhos dos que me rodeiam, sou uma desilusão.

E isso é mais trágico de aturar no Natal.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Relato

Tenho um chefe.

O chefe chefia, portanto manda.

O chefe mandou, ainda que de forma abstrata, fazer determinado requerimento.

Foi feito.

Começava assim: "A Exequente, tendo tomado da Oposição apresentada (...)".

Como é óbvio, faltava lá uma palavra: "conhecimento".

Fui chamado.

Foi-me dito que o meu Português é imperceptível, que sou distraído, tudo num tom parecido àquele que é usado para escorraçar um cão vadio que tenta raspar o nosso caixote do lixo.

Num fundo, a realidade, sendo brutal, fala comigo por enigmas.

Esqueci-me de escrever "conhecimento". Só pode ser porque tenho falta dele.

O meu Português é imperceptível, daí ter concluído as disciplinas que o ensinam sempre com muita dificuldade.

O tom que é usado comigo é o próprio. Afinal, que sou eu senão um cão vadio à cata de lixo?

Isto só não acabou comigo porque estas crises são cíclicas e não contínuas.

Numa linguagem pueril, o chefe esquece-se que me odeia, durante certos períodos de tempo. Depois lembra-se.

Quando se lembra, a pena por me ter esquecido do "conhecimento" é ser tratado como aquilo que sou e mereço.

Se quero pagar renda, comer, tomar banho e fazer outras coisas que custem dinheiro, tenho que aceitar a minha condição.

De cão.

Que sou.

segunda-feira, dezembro 15, 2014

A importância da física e da química nos dias que correm.

• 500 gr de farinha
• 3 ovos
• Raspa de laranja
• 50 gr de açúcar
• 50 gr de manteiga
• 50 gr de aguardente
• Água e sal q.b.

Misturar bem o açúcar com a manteiga. Adicionar os ovos, a aguardente, a farinha e o sal e amassar muito bem. Adicionar água se necessário e amassar até obter uma massa lisa e elástica. Deixar repousar durante, pelo menos, uma hora.
Tender rectângulos com o auxílio do rolo, numa espessura de 2 milímetros. Fazer três cortes no meio. Fritar em óleo e passar por açúcar e canela.

Espírito Santo

Numa rábula mágica do Herman Enciclopédia, imagina-se o que seria uma recriação do "Juiz Decide" em que os "litigantes" são o Menino Jesus e o Pai Natal.

No final, o Pai Natal perde, uma vez que não existe. Em termos técnicos isto chama-se excepção dilatória por falta de personalidade jurídica e, portanto, judiciária. Efeito: absolvição da instância.

Adiante.

Apesar do desfecho desfavorável, os atores processuais cumprimentam-se e o Menino convida o Pai Natal para ir lá jantar a casa, por conta do Espírito Santo. O Pai Natal pergunta se também não existem negócios com o Jardim Gonçalves.

Quando olho para Ricardo Salgado, sempre presumindo a sua inocência e verdade no que alega, lembro-me dos milhões de trocadilhos que se podem fazer com as palavras "Espírito Santo". Aqui há dias, não vi trocadilhos, lembrei-me de algo. Percebi, se assim se quiser.

Esta altura do ano fez entrar uma frase na minha cabeça: "se tivesse tempo e dinheiro, andava sempre e gastava tudo nos médicos".

Tristemente, este tem sido o meu mantra. Especialmente desde o começo do fim-de-semana.

Para mim, nada seria mais reconfortante do que fazer todos os exames possíveis e imaginarios às mais ínfimas partes do corpo.

Mas, melhor mesmo, seria passar uma hora por semana (quiçá duas) num gabinete psiquiátrico a falar da vida.

Só falar, despejar. Tudo a ser ouvido por uma parte imparcial que tomava notas, dava dicas e receitava comprimidos, os quais cuja toma iria negligenciar.

O meu ideal de dia seria acordar, ir para um ginásio privativo durante uma hora, já depois de ter tomado o pequeno almoço e lido as gordas dos jornais. Depois do ginásio, as consultas e exames. Análises ao sangue, urina, fezes e auscultação. Semana sim, semana não, análise ao escarro. Raio-x, TAC.

O almoço era elaborado por alguém que eu nunca iria conhecer e que faria algo supreendente, estando vedada a confecção de peixe cozido.

Depois de almoço, iria litigar. Dar pareceres. Essas coisas.

Depois, ao fim da tarde, psiquiatria para cima. Uma hora de palranço do mais chato e infeliz.

Jantar nos mesmos moldes do almoço.

Cinema.

Cama.

Desviei-me um bocado da rota.

Natal, não era? No que o Ricardo Salgado me levou a pensar.

Enfim, está aí a época.

Não há muitos anos começava a sonhar com o reencontro da minha família. Muitos deles são velhotes desde que me lembro. Mas ainda assim. Nunca fui avesso a pessoas idosas, pelo contrário. Sobretudo àqueles que passavam o Natal comigo devo quase tudo o que sou.

Hoje parece que cresci. A 10 dias do Dia de Natal só me consigo lembrar do que me falta.

Faltam pessoas centrais. Falta, curiosamente, alguma paz.

Vou voltar ao Herman, uma vez que comecei com ele. Lembrei, já neste blog, uma entrevista que ele deu a um programa chamado "Baseado num histórica verídica", em que dizia que a vida dos pobres é uma seca, que não seria, sequer, parecida à do Ricardo Salgado (sempre ele), onde se falaria de cavalos, affairs com chauffers e por aí fora.

Não vou concluir.


quinta-feira, dezembro 11, 2014

Tempo

Estou doente. Não sei se é grave. Não sei se é normal.

Nesta altura do ano, acontece ciclicamente. Constipações múltiplas. Pingo de ranho no nariz, espirros.

Contudo, ao contrário dos outros anos, tratei dos sintomas supra expostos, mas sobrou um: a tosse.

Quem me conhece sabe que tenho medo de duas coisas: do escuro e da tosse.

Tenho uma tosse semi-produtiva há, precisamente, 6 dias. Pior, é mais frequente no início e no fim do dia.

São vários traumas a congregar a desgraça. Neste momento, queria estar em quarentena, a levar com todos os antibióticos possíveis e imaginários.

Mas não.

É neste momento que quero falar do tempo. Não do tempo enquanto fenómeno meteorológico, mas enquanto divisão do dia em horas, minutos e segundos.

E queria lançar um lamento. Tão típico, tão eu.

Lamento não ter tempo de me ir meter no primeiro médico que vir. Lamento não ir a correr para as urgências para me fazerem todos os testes e mais alguns.

Isto é triste, não é?

Odeio estar assim.

sexta-feira, dezembro 05, 2014

sexta-feira, novembro 21, 2014

Sabotagem

Ainda ontem, no gabinete onde exerço cerca de 98% da minha actividade profissional, uma cliente relatava-me como lhe tinha sido "roubado" um contrato de serviços de transporte que havia celebrado com um importante cliente espanhol.

Explicitando, a senhora era uma empresária de sucesso, com faturação anual de mais de € 500.000,00. De um dia para o outro, os empregados, ainda que contratualmente obrigados a absterem-se de semelhantes condutas, constituiram uma empresa e conseguiram que o cliente da dita senhora cessasse o contrato e lhes adjudicasse os serviços.

Esta conduta é reprovável a todos os níveis. Tenho mesmo a sensação que nem o Camilo Lourenço instigaria a tanto, o que não é dizer pouco.

A cliente procurava uma definição para isto. Falou em sabotagem. O primeiro dicionário on-line que a pesquisa do google fornece define sabotagem como: Sabotagem significa toda a ação que visa prejudidar o trabalho de alguém. Sua origem vem da França, onde a palavra ¨sabot¨quer dizer tamanco e antigamente, os operários trabalhavam usando tamancos. Nos protestos contra o patrão , jogavam os tamancos sobre as máquinas para danificá-las, daí o têrmo ficou conhecido com o seu significado atual.

Tenho defendido que coisas más devem acontecer a más pessoas. Tenho, inclusivamente, desejado com algumas das mais profundas forças do meu ser que aconteçam coisas más a más pessoas.

Apesar disto, uma coisa parece certa: nada vai acontecer, a menos que seja provocado. Daí relembrar o episódio da supra citada senhora. Os empregados, (inserir adjectivo), levaram a cabo o seu plano e trabalharam a seu favor. É bem verdade que sabotaram as relações profissionais da senhora, mas eu também já referi que a acção é tudo menos digna.

A lição que tiro disto é que, até em acções profundamente condenáveis estão exemplos. Digo isto a observar uma esfera humana com neve no seu topo. Uma esfera que grunhe, que se move qual lesma, a arrastar-se.

quinta-feira, novembro 13, 2014

Notas

Como sempre, voltou a chover.

A chuva traz consigo um certo estado de alma.

Até esta linha, só escrevi lugares comuns.

O pior da chuva é quando age em comparticipação. Ou quando tem cumplices. Nesse caso, o corpo humano é uma diligência a percorrer uma qualquer paisagem árida do "far-west" prontinha para ser assaltada pelo bando mais temido das paragens: a chuva, o vento, o frio e o sono.

Na diligência que vos escreve, o sono será sempre o cabecilha.

Fui assaltado.

(Metaforicamente, certo?)