quinta-feira, julho 02, 2015

Agora, um desvio na rota, mas não no espírito.

Francisco José Viegas, que chegou a ser Secretário de Estado para a Cultura, tinha um belo blog no qual, de vez em quando, escrevia sobre futebol. A "rubrica", se assim quisermos chamar, dava pelo nome de "Cantinho do Hooligan". Hoje, apetece-me falar do Sporting.

O Sporting Clube de Portugal, fundado em 1906, é um imenso clube. Tem e inspira uma filosofia diferente das restantes agremiações desportivas. Enquanto Benfica e Porto têm uma matriz e base de apoio mais popular, o Sporting diferencia-se e aposta num entendimento do Desporto numa vertente mais plural. O Sporting é um clube de modalidades (para além do futebol). O Sporting tem um nome ouvido em todo o mundo. Em todos os meetings de atletismo, campeonatos de tudo e mais um par de botas, lá ouvimos o constante "(...) atleta do Sporting". Claro, os outros clubes também os têm. Sucede que os bons, verdadeiramente bons, são nossos. No disrespect.

Dito isto, o futebol é aquilo que preocupa 98% dos adeptos do clube.

E, no que a futebol diz respeito, isto não anda bem. Vamos a factos:

1. Há pouco dinheiro para grandes contratações;
2. A gestão desportiva é débil e inconsequente, senão vejamos;
2.1 Foi despedido o treinador que melhor pôs a equipa a jogar nos últimos anos e que ganhou, de facto, alguma coisa;
2.2 Nenhuma contratação trouxe algo de melhor à equipa, desde a tomada de posse de BdC;
3. A gestão (latu sensu) do clube corre o risco de ruir brevemente, ora;
3.1 No mesmo espaço físico estarão BdC, Jorge Jesus, Octávio Machado, Inácio, M. Fernandes
3.2 Deste lote, não há uma alma com bom feitio e espírito de negociação, é vai-ou-racha, sendo que vários destes elementos dão-se como cão e gato ou já deram;
3.3 Se não há vitórias no início do campeonato, rebenta a bomba.

Uma vez que não sou nenhum Rui Santos, deixo uma preocupação: que o edifício caia. Que ninguém se entenda. Que sejamos gozados pela incompetência e falta de visão.

A contratação do Octávio é errada. Não quero personalizar, mas acho que teve um tempo e que o tempo passou. Mesmo o tempo que teve foi um tempo mal passado.

Tenho pena do estilo do BdC. Aquilo não é o Sporting.

Acho que não vamos ganhar nada este ano. É mesmo triste, mas acho. Para além de um treinador que é, na minha opinião, acima de excelente e triplamente doutorado, não em futebol, mas em "bola", não há mais nada. Não há factores de acrescento, só factores de debilidade.

E pronto. Resta apoiar.

Obrigado e boa tarde.

terça-feira, junho 30, 2015

Por alguma razão

Quando o sol se põe, começo a lembrar-me dele, por alguma razão.

O auge da sua falta foi, sem qualquer dúvida, no dia do meu casamento. Senti-me culpado. Por tantas coisas. A primeira foi por não o ter ali. Viu-me sair de casa. Ainda soube da minha mudança para outra casa. Não me viu casar.

Falava bastante com ele. Tinha posição sobre tudo, concordasse-se ou não com ela. Tinha perspectiva, observava. Seria excelente saber o que pensa e o que ele pensava sempre me interessou. Não era mau a julgar caracteres e já tinha visto umas coisas. E ainda há a questão do sentido de humor. Forte.

Nunca o conheci com os defeitos que, ao longo do meu crescimento, lhe foram apontando. Certamente que os teria, o meu ponto é que não os via. Comigo sempre foi acima de excelente.

Deixou mágoa. A partida mudou, de forma objectiva e necessariamente definitiva, a vida. A minha e outras.

E lembro-me dele, sobretudo, quando uma vez, sozinhos, depois de ouvir uma das minhas ladainhas sobre a inutilidade da existência, me disse, de forma avisada e sincera, que devia arranjar ajuda.

Bom, essa ajuda veio, de várias formas. Mais ninguém me teria dito "vai-te tratar" com a seriedade e amizade dele. Costumo odiar sinceridade, mas ali soube-me bem. Talvez por se ter dado um dos raros casos em que a verdade/sinceridade se adequava e mal não faria.

Recordo-o sorridente.

E isso é tudo.

quarta-feira, junho 17, 2015

3 anos

Completam-se 3 anos, neste dia, desde que saí da casa dos meus pais e fui viver com "a tal", a que é hoje minha mulher.

Vou começar pelo inevitável chavão: passou a voar. Ainda me lembro como se tivesse sido há bocado. Saímos, ambos, das nossas origens e fomos ocupar a casa à tarde.

A casa era modesta, bastante humilde, mas serviu o seu propósito, o de albergar um jovem casal, durante pouco mais de um ano. As deficiências do imóvel eram algumas. As do lar nem tanto. Tive sérias infiltrações, rastejantes, frio de rachar e calor de assar.

Apesar de ter sido uma casa para esquecer, há de ficar sempre na minha memória. Porque, apesar de tudo, foi ali que começou a nova etapa da minha vida.

terça-feira, junho 02, 2015

Ser Sócrates, ser 44

No passado dia 31 de Maio de 2015, o Sporting Clube de Portugal ganhou a sua 16.º Taça de Portugal.

Para a massa adepta de um clube que tem andado arredado, quer das discussões, quer dos títulos, significa muito ter o que festejar, quando, e sobretudo, a vitória é de uma raça inigualável.

No dia seguinte ao triunfo, quando venho trabalhar, lembro-me que tenho um cachecol guardado no armário do arquivo. Trata-se, obviamente, de um cachecol à Sporting, com símbolo, cores, the whole nine yards. Orgulhosamente, exibo-o, ainda que não ostensivamente, por cima de uma cómoda que habita o meu gabinete.

Durante o dia, ao receber clientes, e para não ferir susceptibilidades, arrumava-o. Contudo, quando a chamada costa estava livre, lá aparecia ele.

Os meus colegas, Benfiquistas agudos, ao verem aquilo, riam amistosamente, cumprimentavam-me pelo sucesso da minha equipa do coração. O próprio chefe, viu, gargalhou sonoramente e jamais me fez um reparo por ter ali colocado o artefacto.

Hoje, ao chegar, dou de caras, no gabinete onde cumpro calvário, com o irmão do patrão, figura a que já fiz referência no passado.

"Duarte, fui eu que te tirei o cachecol dali. Se a gente não queremos ser provocados, não podemos provocar. Eu conheço o meu irmão e sei que ele não gosta destas coisas. Eu conheço o meu irmão"

Senti-me um preso em Évora.




quarta-feira, maio 27, 2015

Uma estreia

Hoje, fui ameaçado.

Não falo no sentido técnico-jurídico. Falo no plano "social".

É uma estreia.

Não foi uma ameaça de morte. Não foi contra a minha vida, ou integridade física.

Foi no âmbito profissional.

Sendo sempre correcto e justo com todos, fui ameaçado.


segunda-feira, maio 25, 2015

São 8 anos







A minha existência é, por alguma razão que me escapa, marcada por uma angústia constante. A verdade é que poucas vezes tive equilíbrios que me permitissem alguma paz. Contudo, foram muitas as vezes que fui feliz. Modo geral, sou-o.

Faz hoje 8 anos que a minha vida sofreu a primeira grande alteração: encontrei alguém que até estava disposto a aturar-me. Claro que a minha família nunca me faltou com nada, não me podendo queixar. Sucede que, há 8 anos, alguém começou a ver em mim algo que nem eu próprio vislumbro.

Depois de tantos episódios (tantos e bons!), acabei por me casar com a Tal. Aquela que, há 8 anos, me disse que sim.

Se hoje somos casados, também posso dizer que nunca deixámos de ser namorados.

segunda-feira, maio 18, 2015

A multiplicação dos aniversários

"Comemoro" (e mais aspas houvesse) 3 anos de agregação à Ordem dos Advogados.

Recordo-me do dia. Foi tão indiferente, que até comecei a fumar. Foi tão ligeiro, que nem consegui estar ao pé das examinadoras quando foi revelada a nota.

Em suma, um dia fácil, ou não dependessem quase três anos da mais pura submissão a um só momento.

3 anos depois, nesta Segunda-Feira, chego ao escritório e recebo uma mensagem no telemóvel.

"Já tive a má notícia, a juiza condenou-me a pagar tudo a eles".

*

Fui procurado por um colega. Disse-me que precisava da minha ajuda. Havia duas partes em contenda e ele, advogado, sendo amigo de ambas, não queria patrocinar aquela que lhe tinha solicitado patrocínio forense. Pediu-me, então, que avançasse, que representasse aquela que o tinha procurado. O trato era simples: ele fazia os articulados e eu o julgamento.

O caso era ruím. Em traços largos, duas amigas de infância, uma mais rica e outra menos, começaram a explorar um café, juntamente com o marido da rica. O negócio foi proveitoso e quiseram avançar para uma frutaria, na porta ao lado. A frutaria era para ser explorada pelas duas, tanto que ambas, formalmente, eram gerentes. A rica e o marido pediram um empréstimo ao banco e equiparam a casa. Contudo, o negócio correu mal. Não havia receitas, surgiram multas de várias entidades...um pavor. É então que a rica decide que quer fechar aquilo. A menos abonada diz que não, que mantém o barco. Celebra novo contrato de arrendamento e fica a laborar lá.

Alguns anos mais tarde, a rica e o marido dão entrada de uma acção a pedir uma avultada quantia pelos móveis que ficaram no estabelecimento, alegando a existência de um contrato de compra e venda. A "Demandada" procura o meu colega e o meu colega procura-me a mim.

Vim a saber várias coisas.

- Nunca foi celebrado contrato algum. Aliás, os "Demandantes" juntam na Petição Inicial uma minuta e para lá remetem quando querem provar a "existência do contrato";

- Por várias vezes, a minha constituinte insistiu para que os "Demandantes" fossem buscar os seus móveis, até lhe enviou cartas;

- A rica (so to speak) tinha a chave da loja, e sempre teve, para poder ir buscar os móveis e nunca foi;

- A rica deixou dívidas e a pobre pagou-as.

Faz-se julgamento. A minha primeira pergunta para todas as testemunhas, seja dos "Demandantes" como da "Demandada" foi: tem conhecimento se foi celebrado algum contrato entre as partes? A resposta, de todas!, foi uma só: "não". Se não há nada escrito e se ninguém pode confirmar a existência de contrato, está criada uma nova modalidade de prova: a prova por presunção de existência de contrato.

As testemunhas sabiam que tinha havido amizade, um negócio, que as coisas correram mal, mas nunca ninguém disse que tinha havido um contrato.

*

No aniversário dia em que me agreguei, perdi uma acção.

A meu ver, perdi-a sem razão (a sentença é anedótica ao ponto de dar como provados factos que TODAS as testemunhas negaram).

Perdi.


Perder quando o cliente pode suportar é uma coisa. Perder quando nem havia alternativa é uma coisa. Perder quando nada se logrou é uma coisa.

De forma vergonhosa, uma quadrilha foi a um Julgado de Paz pedir dinheiro e saiu de lá com uma sentença.

Sem provar nada. Sem mostrar nada.

E eu não pude evitar.

Perdi.

Se houver deus, não estarei mais 3 anos metido neste sistema.

Não haja equívocos: esta é a pior profissão do mundo.

E eu celebro o terceiro aniversário de "carreira". Sou um Tony.